A IDENTIDADE DO IMIGRANTE NA

LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA

 

Stefania Chiarelli Techima – UNB

 

É preciso aprender a ouvir outras vozes, escutar narrativas esquecidas ou emergentes, torná-las produtivas na dinâmica política da história, buscando por meio deste procedimento, indicar as articulações entre cultura e política, entre estética e ética.

 

O presente trabalho se propõe a ser uma reflexão a respeito da questão da identidade cultural do imigrante, privilegiando a literatura como veículo dessa temática. O caminho escolhido incide na problematização em torno da  literatura que contempla a construção da imagem de um grupo, mais especificamente aquele da imigração.  A opção foi também a de fazer um mapeamento de narrativas que  estimulam tal tipo de enfoque.

Na análise dos referidos textos, busca-se reconstituir um testemunho que constrói a História, mas certamente nossa abordagem não se pretende  histórica, mas sim literária, posto que vê  esses relatos como elaborações ficcionais: são relatosfiltrados por um ponto de vista individual, que ora lança o olhar sobre sua própria trajetória, ora  o faz sobre a trajetória de um grupo específico.

A pertinência de se pensar a questão da identidade cultural na produção contemporânea, então,  se assoma. Pensar em que consiste uma identidade nacional brasileira, hoje, exige que se conceba a eleição de atributos que qualifiquem o que deve ser considerado verdadeiramente nacional.  O que se percebe, no entanto, é que tais atributos são geralmente ligados a valores quase sentimentais que o povo brasileiro tem a seu próprio respeito, a exemplo do homem cordial, da malandragem, da alegria de viver, etc.

O perigo de representar-se como exótico é o estreitamento das possibilidades de expressão, e também o conformismo quando exibido pelo próprio brasileiro. Neste sentido, é quase impossível não referir as narrativas de Jorge Amado, uma vez que reforçam a imagem exótica do país e de seus habitantes. Não é difícil imaginar os motivos pelos quais é um campeão de vendas de literatura brasileira no exterior.

Nem a uniformização - uma lamentável conseqüência da globalização - e  nem o apego a pequenas diferenças parecem suscitar uma leitura apropriada da complexa questão da identidade. Sugerem, de fato, interpretações equivocadas e  demasiadamente parciais.

Os textos referidos  dão, cada um a seu modo e de forma variada, conta da questão da identidade pela ficcionalidade, ao expor, com fino traço, tanto no plano individual quanto no cultural, a dificuldade de se elaborar esse processo de diferenciação  a partir e apesar de uma identidade.  Ao mesmo tempo que obra de arte, eles pretendem trazer à tona um Brasil que é feito de muitas nuances,  espécie de  vitral que reflete todas as cores e que sem elas não seria jamais o mesmo. São vozes - muitas vezes anônimas - que, ao tratar da própria origem, falam também de como contribuíram para formar um conceito tão difícil de ser definido como a identidade nacional.

Ao lançar mão das narrativas que nos falam da imigração, tenta-se vislumbrar este Brasil que também é nosso, mas constituído a partir do olhar do outro. Podemos questionar se é possível entender a literatura brasileira sem trilhar essa senda e se, ao ignorá-la, não se estaria incorrendo em mais uma forma de segregação. Trata-se de ressaltar a importância dessas narrativas  a partir do momento em que revisitam períodos da história renovando-os pela problematização do enredo, através de um discurso bem construído e trabalhado esteticamente.

 A figura do estrangeiro é por si só densa e carregada de significados. Georg Simmel, no texto  O estrangeiro, aponta para a dualidade  implícita nesse ser, que está próximo e ao mesmo tempo distante. Segundo o autor, 

 

O estrangeiro está próximo na medida em que sentimos traços comuns de natureza social, nacional, ocupacional, ou genericamente humana, entre ele e nós. Está distante na medida em que estes traços comuns se estendem para além dele ou para além de nós, e nos ligam apenas porque ligam muitíssimas pessoas.

 

A noção de que as relações espaciais determinam as relações humanas encontra no viajante um tipo singular como forma de interação com o grupo, uma vez que é um ser que traz a marca da ambigüidade. Assim, estariam de certa maneira em posição privilegiada para julgar , em relação aos habitantes do local.

No entanto, o aprofundamento da idéia de que o imigrante vive uma espécie de luto  merece atenção, uma vez que há uma perda  das raízes, da identidade e da independência pela chegada a um novo lugar. 

O tema do expatriamento é um emblema desta situação: são seres exilados,  retirados de seus locais de origem, que irão viver em um lugar onde não há ainda o sentido de vida coletiva ou de agregação, pois tudo está por ser construído. Sobre a situação de errância do imigrante, afirma  Adorno: “Sua língua foi expropriada, e desviada dele a dimensão histórica da qual seu conhecimento extraía forças”.

Daí o predomínio quase que constante do sentimento de melancolia, da rememoração da dor de não pertencer  a  nenhum lugar. Em um segundo momento, poder-se-ia acrescentar que já não há mais possibilidade de integração na terra natal (que  mudou desde que dela se saiu) e permanece o estranhamento com a relação à nova terra. O imigrante, neste sentido, sofre um duplo desterro.Essa situação encontra tradução nos belas palavras do escritor português Miguel Torga: “Pareço uma dessas árvores que se transplantam, que têm má saúde no país novo, mas que morrem se voltam a terra natal”.

Uma vez que as narrativas citadas reportam-se a um momento específico do passado e suas singularidades - a chegada do imigrante, sua adaptação, problemas daí decorrentes - , um tema que se mostra pungente é o da memória. É ela o fio condutor que nos leva inexoravelmente  a episódios (verídicosou não) que compõem o painel da imigração no país.

Nesse momento é possível se pensar na relevância que Walter Benjamim imprime ao papel da memória em seus escritos. Ao enfatizar a rememoração das experiências como uma forma de salvar a tradição do esquecimento, Benjamin aponta a possibilidade de se recuperar uma espécie de memória não-oficial.

“Articular historicamente o passado não significa conhecê-lo ‘como ele de fato foi’. Significa apropriar-se de uma reminiscência, tal como ela relampeja no momento de um perigo.”[1] É um desses muitos “agora” de que a história é feita que propomos examinar. O interesse reside na busca de como dar forma artística ‘a essa matéria vivida, de seu recorte e de sua montagem, para apreender como “um destino singular supera o documento e se converte em obra de arte, com irradiação simbólica capaz de ir além da gênese e brilhar com luz própria.”[2]

A memória, vista como um patrimônio comum, é o meio de manter e resgatar a experiência coletiva. Para tanto, Benjamin elege as figuras do agricultor e a do marinheiro como aquelas que têm muito a dizer – o primeiro por viver experiências ligadas à terra e seu ritmo, e o segundo pelo próprio tema da viagem. Poderíamos acrescentar que, nessa perspectiva, o imigrante reúne em si dois elementos, o que o situa em uma posição privilegiada como narrador também.

Com o intuito de ilustrar, e também de mapear narrativas que abordam essa temática, citaremos algumas delas, agrupadas de acordo com a etnia a que se referem. Não se trata obviamente de um elenco que esgota o assunto, ele apenas recorta do conjunto da literatura brasileira alguns momentos em que essa temática emerge. As obras contribuem, cada qual ‘a sua maneira e em níveis diferentes, para a discussão do modo de se representar a alteridade no âmbito da literatura brasileira:

 

 

O judeu

 

Samuel Rawet, em Contos do Imigrante, de 1956, refere e aprofunda o tema do imigrante e do estrangeiro de forma radical. Autor pouco lembrado e ainda menos estudado, Rawet inovou ao romper com a estrutura do conto tradicional, privilegiando instantes ao invés de um fluxo temporal homogêneo e colocando em cena personagens em situações dramáticas. Através de um estilo denso e de linguagem depurada, o autor desvela situações existenciais de desconforto e de conflito.

Associando o imigrante como uma configuração do estranho, Rawet propõe um novo olhar a partir da ótica descentrada do imigrante. Suas personagens são seres sofridos, que se deparam com a incomunicabilidade e a impossibilidade de compartilhar experiências, sejamelas referentes aos horrores da guerra, à condição do imigrante, ou a qualquer outro drama pessoal. A partir dessa temática específica, sua narrativa abrange características universais.

 

Moacyr Scliar também tem se debruçado  sobre a temática judaica, à exemplo do conto “Na minha suja cabeça, o Holocausto” e da obra A Condição Judaica, ou como pano de fundo de sua narrativas, como em Os Deuses de Raquel, A Guerra no Bom Fim (1972), O Centauro no jardim, Cenas da vida minúscula e A Majestade do Xingu (1997).

 

O italiano

 

No gênero conto, destacam-se  Antônio de Alcântara Machado com Brás, Bexiga e Barra Funda(1927), e  Mário de Andrade com Contos de Belazarte (1972) que a partir da proposta modernista de inclusão da linguagem popular a partir da multiplicidade étnica que forma o país, alçaram o imigrante italiano ao papel de protagonista de suas narrativas de forma pioneira.

 

Anarquistas, graças a Deus, (1979) de Zélia Gattai, registra o  cotidiano da família Gattai na São Paulo do início do século mesclando memória e ficção. Formada por pequenos episódios, a obra revive a vinda dos imigrantes, a casa, os amigos, o bairro, a família e também as dificuldades de forma despretensiosa e bem-humorada. No recém-lançado Città di Roma, Gattai  retoma o projeto literário iniciado com a obra anterior, centrando o enfoque  do romance na viagem empreendida por seus familiares italianos a bordo do navio homônimo bem como a chegada a cidade de São Paulo.

 

O tema da imigração italiana é também explorado por José Clemente Pozenato, no romance O Quatrilho (1985). O título refere-se ao jogo de cartas de origem italiana, que serve como metáfora para a troca de casais que acontece no romance, ambientado na serra gaúcha no início do século.

 

 

O árabe

 

O romance Lavoura Arcaica (1975), de Raduan Nassar,  remete à questão da cultura árabe. A narrativa ultrapassa em diversos aspectos a mera abordagem da questão. Além da  temática,  a elaboração textual, o tratamento das relações familiares, a relação dialética estabelecida entre as personagens fazem deste um romance ímpar na literatura brasileira contemporânea.

O romance se inicia com o encontro entre André e Pedro, em que o segundo lança um apelo para que o irmão rebelde se reintegre à vida familiar e tudo o que ela representa. O retorno de André à casa paterna configura-se em um embate entre pai e filho. A rigidez, a autoridade e a tradição da figura paterna se contrapõem em tudo ao que representa André. Nassar constrói uma narrativa atemporal, mas que evoca o tom da tragédia grega, narrando o amor incestuoso de |André pela irmã Ana, cujo desfecho é dramático.

 

Destacamos  também Relato de um certo Oriente(1989), de Milton Hatoum, que acompanha a trajetória de uma família libanesa em Manaus, compondo, por meio da narrativa de diversas memórias familiares, um emocionante mosaico. Remetendo aos textos das 1001 noites,   com dicção lírica, o romance apresenta os conflitos e o desmantelamento de uma família matriarcal, através do olhar de seus descendentes. O autor retoma a temática no recente Dois Irmãos, em que os gêmeos Yaqub e Omar debatem-se durante toda a vida entre o amor e o ódio em meio a uma família libanesa, em romance novamente ambientado  na cidade de Manaus.

 

O alemão

 

Um rio imita o Reno (1939), de Viana Moog, estabelece um contraponto entre as culturas brasileira e alemã. Ao narrar a história de amor entre o amazonense Geraldo e a bela Lore Wolff,  o autor encena a questão da disseminação da propaganda nazista entre os imigrantes. Frau Marta, a rígida mãe de Lore, não concebe a idéia da mistura de raças,  “Não havia de tolerar a ameaça de um intruso na família, um negro.”(p 93), mas acaba por sucumbir à depressão ao descobrir um distante parente judeu em sua família.

Geraldo,descendente de índios nhengaíba, é a própria antítese do ódio racial, uma espécie de encarnação do índio “pacífico por natureza”. Culto e idealista, é leitor de Homero, Goethe e admirador de Nietzsche. Seu personagem atua como um elemento estranho na germanizada cidade de Blumental, espaço que lhe suscita a reflexão sobre a verdadeira natureza de cada povo. É como se, ali, ele fosse o estrangeiro: “Parecia-lhe que tinha cruzado os oceanos e estava longe da pátria. (...) Sentia saudades do Brasil” (p 17)

 

A obra A Ferro e Fogo I : Tempo de Solidão(1972), de Josué Guimarães, encena o início da colonização alemã no Brasil,  enfocando a colônia de São Leopoldo no Rio Grande do Sul. Trata-se do primeiro volume de uma trilogia inacabada, que se encerra com A Ferro e Fogo II - Tempo de Guerra. Misturando os destinos dos castelhanos, índios, alemães e brasileiros, Josué Guimarães apresenta um vasto painel da imigração germânica em tom de saga.

 

A escritora Lya Luft  privilegia o olhar feminino e a subjetividade em   A asa esquerda do anjo(1981),  romance que narra as indagações e o mal-estar de Gisela Wolf, brasileira descendente de alemães, em meio a uma rígida família cujo centro é a austera avó Frau Wolf. O estranhamento frente à dupla identidade de Gisela ( e também sua sexualidade, uma vez que nutre uma secreta paixão pela prima Anemarie)  é objeto de reflexão dessa obra, em que muitos personagens vivem a condição de exilados e as relações familiares são espaço de conflito. “Tudo precisava ser recomendado, ensaiado, mil vezes lembrado: gestos, expressões, linguagem, tudo falsificado na montagem daquele teatro em que se fraudava, até o menor resquício, a nossa identidade”, reflete a protagonista (p 45)

 

Videiras de cristal (1997), de Luiz Antonio de Assis Brasil, preocupa-se em reconstituir historicamente o episódio dos muckers, ocorrido no interior do Rio Grande do Sul, nasegunda metade do século passado. Liderados por Jacobina Maurer, uma legião de colonos alemães se insurge contra o as instituições em nome da religião, o que termina em um massacre, narrado em minúcias nesse romance histórico.

 

 

Conclusão

 

Ao esboçar uma espécie de mapeamento de narrativas representativas de alguns grupos que constituíram o contingente imigrante do país, fazemos o recorte de uma possível interpretação da identidade cultural brasileira, uma vez que, assumindo sua parcialidade, são relatos  reveladores de identidades sociais dos grupos a que pertencem - sejam eles árabes, italianos, judeus ou alemães - e contribuem para delimitar uma fisionomia cultural singular a partir da articulação da diferença.

Ao trabalhar com narrativas representativas de grupos específicos, pretende-se  estabelecer uma espécie de “escuta” atenta  a esses segmentos em detrimento de outros. Entretanto, teremos sempre presente que essa voz parte do Outro em relação a alguém: é nesse momento que se estabelece a necessidade de examinar os relatos em função de uma alteridade,  conceito relacional que demanda o estabelecimento de uma dialética integradora dessas partes para dar conta  da questão da identidade.

Dentro dessa perspectiva de dar voz a um segmento marcado por  certa “exclusão” ou “margem”,  procuramos  provocar um estranhamento  para que seja possível compreender outras perspectivas e a multiplicidade de vozes que compõem os discursos produzidos sobre nossa cultura.

De maneira geral, pode-se dizer que  se tratam de narrativas não-canônicas em termos de literatura brasileira, até mesmo por configurarem uma temática específica que lhes dá uma unidade. Nosso intuito foi de desenhar o contraste em relação a narrativas canônicas que falam do Brasil  e que, por exaltarem aspectos ligados ao elemento exótico que o caracteriza, acabam por reforçar uma imagem estereotipada e preconceituosa de nossa identidade.

Citando o crítico Homi Bhabha, não queremos que a figura do imigrante se configure como “o dócil corpo da diferença”, por isso manipulável e aprisionada em rótulos. Consideramos produtiva e criativa a idéia de que ele ocupe um espaço enunciativo capaz de expressar uma descentralização de perspectiva a respeito de nossa cultura.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

ASSIS BRASIL, Luis Antônio. Videiras de Cristal. Porto Alegre, Mercado Aberto, 

1997.

ANDRADE, Mário de. Contos de Belazarte. São Paulo, Martins; Brasília, INL, 1972.

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas,  Vol I. São Paulo, Brasiliense, 1985.

BHABHA, Homi. O local da cultura. Belo Horizonte, Ed. UFMG, 1999.

GATTAI, Zélia. Anarquistas, graças a Deus. São Paulo, Record, 1979.

________ Città di Roma. São Paulo, Record, 2000.

GUIMARÃES, Josué. A Ferro e Fogo I - tempo de solidão. Porto Alegre, L&PM,

1982.

HATOUM, Milton. Relato de um Certo Oriente. São Paulo, Companhia das Letras, 1989.

_______ Dois Irmãos. São Paulo, Companhia das Letras, 2000.

LUFT, Lya. A asa esquerda do anjo. São Paulo, Siciliano, 1991.

MACHADO, Antônio Alcântara. Brás, Bexiga e Barra Funda. Ed fac-similar. São

Paulo, Imprensa Oficial do Estado: Arquivo do Estado, 1982.

MOOG, Viana. Um rio imita o Reno. Rio de Janeiro, José Olympio, 1987.

NASSAR, Raduan. Lavoura Arcaica. São Paulo, Companhia das Letras, 1975.

POZENATO, José C. O quatrilho. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1985.

RAWET, Samuel. Contos do Imigrante. Rio de Janeiro, José Olympio,1956.

SIMMEL, Georg. “O estrangeiro” in Coleção dos Grandes Cientistas Sociais. São

Paulo, Ática, 1983.

VELOSO, Marisa, MADEIRA, Maria Angélica. Leituras brasileiras. Itinerários no  

pensamento social e na literatura. São Paulo, Paz e Terra, 1999.

 



[1] BENJAMIN, Walter. Obras Escolhida. Vol I. São Paulo: Brasiliense, 1985, p. 224.

[2] ARRIGUCCI JR, Davi. “Tudo é exílio” In Outros Achados e Perdidos. São Paulo: Companhia das Letras, 1999, p. 322.